" Eu faço as minhas coisas e você faz as suas;
Não estou neste mundo para atender às suas expectativas, e você não está neste mundo para atender às minhas expectativas;
Você é você, eu sou eu, e se por acaso nos encontrarmos, é lindo; Se não, nada há a fazer."
Frederick Perls
Essa é a famosa oração gestáltica, tão presente na internet, seja nas redes sociais ou nos blogs. No entanto, estudando-a ou mesmo lendo-a com mais calma e tempo para analisá-la, há que possa perceber um certo grau de egoísmo nas entrelinhas.
Vamos então analisar o que Fritz Perls, o criador da Gestalt-Terapia quis dizer por meio destas sublimes frases?
"Eu faço as minhas coisas e você faz as suas"- Pode parecer egocêntrica esta afirmação, mas creio que Perls propôs aqui uma forma de vivência autônoma, independente do outro. Melhor dizendo, uma apropriação do que é seu, ao mesmo tempo que o outro se apropria do que é dele, da autonomia vivencial dele. Desta forma, assim como eu respeito as "coisas" que você faz, você respeita o que eu faço".
"Não estou neste mundo para atender às suas expectativas, e você não está neste mundo para atender às minhas expectativas". Aqui Fritz quis chamar atenção para um dos sintomas mais neuróticos: corresponder às expectativas dos outros.
Interessante notar que todas os transtornos neuróticos tem esta tentativa de corrersponder às expectativas do "outro" em sua semiologia. É uma luta sem fim para ser o ideal do outro, seja como filho, aluno, amigo, namorado, profissional, etc... As pessoas literalmente se acabam tentando ser aquilo que o outro quer.
Fritz Perls, vem desconstruindo esta ideia neurótica até o último fio! Chamando atenção para o fato de que ninguém precisa corresponder às expectativas de ninguém. O mundo do outro é do outro e o meu mundo é meu.
Infelizmente vivemos em um mundo em que pensamos que devemos ser atendidos a todo tempo, ao mesmo tempo em que vivemos para atender ao outro em seus anseios ( neurose total). Quando na verdade não, o outro não tem que corresponder aos meus anseios, não tem que agir como eu quero, não tem que saciar minha sede, não tem que matar minha fome. Aí entra também outra questão: será que me conheço bem para saber de que tenho fome ou sede? Ou será que até isso deverá ser dito pelo outro?
Entendem a importância da vivência autônoma?
"Você é você e eu sou eu": aqui fica estabelecida a fronteira do ego ou como se diz em gestalt-terapia, fronteira de contato. Limitando então o que é meu e o que é do outro. Vê-se claramente nesta afirmação o estabelecimento das fronteiras tanto do ego, como do campo dos indivíduos.
Essas fronteiras ou limites, são muito importantes para o estabelecimento de relacionamentos sadios, sejam em quaisquer aspectos da vida.
" E se por acaso nos encontrarmos é lindo, se não, nada há a fazer."
Aqui justamente inicia o problema da maioria das pessoas, a necessidade de controle. Esse "nada há a fazer", não é bem digerido pela maioria. As pessoas tentam a qualquer custo, ás vezes bem alto, dar um jeitinho, fazendo com que o outro se encaixe nos seus padrões, ou tentando conformar a si mesmo ao padrão alheio.
Perls nos mostou a importância do desapego, no sentido de conscientizar-se que há situações em que não existe o que fazer, há relacionamentos ou pessoas as quais devemos apenas deixar ir. E isso é tão difícil e tão doloroso para tantos indivíduos, justamente pela "mania" de controle.
Espero que você tenha gostado deste post e que ele tenha feito sentido para você também!
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Grande abraço, um abraço Gestáltico!!
Minha fonte:
PERLS, Frederick Salomon; HEFFERLINE, Ralph; GOODMAN, Paul. Gestalt-terapia. São Paulo: Summus, 1997.
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