terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

ORAÇÃO GESTÁLTICA: Egoísmo ou Desapego?

" Eu faço as minhas coisas e você faz as suas;

Não estou neste mundo para atender às suas expectativas, e você não está neste mundo para atender às minhas expectativas;

Você é você, eu sou eu, e se por acaso nos encontrarmos, é lindo; Se não, nada há a fazer."

                                                                                                                                           Frederick Perls

Essa é a famosa oração gestáltica, tão presente na internet, seja nas redes sociais ou nos blogs. No entanto, estudando-a ou mesmo lendo-a com mais calma e tempo para analisá-la, há que possa perceber um certo grau de egoísmo nas entrelinhas. 

Vamos então analisar o que Fritz Perls, o criador da Gestalt-Terapia quis dizer por meio destas sublimes frases?

"Eu faço as minhas coisas e você faz as suas"- Pode parecer egocêntrica esta afirmação, mas creio que Perls propôs aqui uma forma de vivência autônoma, independente do outro. Melhor dizendo, uma apropriação do que é seu, ao mesmo tempo que o outro se apropria do que é dele, da autonomia vivencial dele. Desta forma, assim como eu respeito as "coisas" que você faz, você respeita o que eu faço".

"Não estou neste mundo para atender às suas expectativas, e você não está neste mundo para atender às minhas expectativas". Aqui Fritz quis chamar atenção para um dos sintomas mais neuróticos: corresponder às expectativas dos outros. 

Interessante notar que todas os transtornos neuróticos tem esta tentativa de corrersponder às expectativas do "outro" em sua semiologia. É uma luta sem fim para ser o ideal do outro, seja como filho, aluno, amigo, namorado, profissional, etc... As pessoas literalmente se acabam tentando ser aquilo que o outro quer. 

Fritz Perls, vem desconstruindo esta ideia neurótica até o último fio! Chamando atenção para o fato de que ninguém precisa corresponder às expectativas de ninguém. O mundo do outro é do outro e o meu mundo é meu. 

Infelizmente vivemos em um mundo em que pensamos que devemos ser atendidos a todo tempo, ao mesmo tempo em que vivemos para atender ao outro em seus anseios ( neurose total). Quando na verdade não, o outro não tem que corresponder aos meus anseios, não tem que agir como eu quero, não tem que saciar minha sede, não tem que matar minha fome. Aí entra também outra questão: será que me conheço bem para saber de que tenho fome ou sede? Ou será que até isso deverá ser dito pelo outro?

Entendem a importância da vivência autônoma?

"Você é você e eu sou eu": aqui fica estabelecida a fronteira do ego ou como se diz em gestalt-terapia, fronteira de contato. Limitando então o que é meu e o que é do outro. Vê-se claramente nesta afirmação o estabelecimento das fronteiras tanto do ego, como do campo dos indivíduos.

 Essas fronteiras ou limites, são muito importantes para o estabelecimento de relacionamentos sadios, sejam em quaisquer aspectos da vida.

" E se por acaso nos encontrarmos é lindo, se não, nada há a fazer."

Aqui justamente inicia o problema da maioria das pessoas, a necessidade de controle. Esse "nada há a fazer", não é bem digerido pela maioria. As pessoas tentam a qualquer custo, ás vezes bem alto, dar um jeitinho, fazendo com que o outro se encaixe nos seus padrões, ou tentando conformar a si mesmo ao padrão alheio.

Perls nos mostou a importância do desapego, no sentido de conscientizar-se que há situações em que não existe o que fazer, há relacionamentos ou pessoas as quais devemos apenas deixar ir. E isso é tão difícil e tão doloroso para tantos indivíduos, justamente pela "mania" de controle.

Espero que você tenha gostado deste post e que ele tenha feito sentido para você também!

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Grande abraço, um abraço Gestáltico!!

Minha fonte:

PERLS, Frederick Salomon; HEFFERLINE, Ralph; GOODMAN, Paul. Gestalt-terapia. São Paulo: Summus, 1997.



sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

TRANSTORNO DE PERSONALIDADE ANTISSOCIAL- Análise Psicanalítica do longa "Precisamos falar sobre o Kevin", de Lynne Ramsay

 

O filme “Precisamos falar sobre o Kevin”, é desde o início um filme brutal, repleto de cenas de violência e abandono não físicos. Pode-se notar logo de início, o pesar psicológico que a gravidez, indesejada para a mãe e desejada para o pai, representava na vida de Eva. Fica claro que Eva sentia-se uma mulher realizada, bem sucedida profissionalmente, livre e independente, no entanto, após o nascimento de Kevin, sua vida mudaria completamente, transformando a mulher de sucesso em mãe e típica dona de casa.

Nota-se a inabilidade de Eva para desempenhar tal papel quando a mesma segura o bebê longe de si, e quando ela se desespera por não conseguir fazer a criança parar de chorar. Porém quando o pai o segura, é perceptível a relação de afeto que se estabelece entre o progenitor e a criança, quando o bebê se acalma e cessa o pranto em seus braços.

Adotando esta linha de pensamento, e analisando os afetos não exteriorizados, as palavras não ditas, a não aceitação implícita na falta de empatia, na inexpressão do amor e do pertencimento, levanta-se uma questão: se durante a gravidez, há uma relação simbiótica entre mãe e filho, então todos os afetos da mãe são experenciados pelo feto, logo, Kevin ainda na vida intrauterina introjetou a incapacidade de ser amado e, consequentemente, a mesma incapacidade para amar. Assim, conclui-se que se este sujeito não pode ter o domínio sobre seu primeiro objeto de desejo, neste caso, a mãe, por meio do amor, este sujeito trata de assegurar então este domínio através da atenção, mesmo que isso se dê de forma negativa e dolorosa para ambos. Daí entende-se perfeitamente o uso (ainda que inconsciente) do choro compulsivo, da extensão da fase anal (assegurado pelo não controle do esfíncter anal), obrigando a mãe a “receber suas primeiras produções”. Contudo, estes esforços mostram-se um desperdício de energia psíquica pois em relação ao choro, a mãe sequer consegue afagar lhe, e em relação às fezes e ao uso das fraldas, a mãe deixa claro seu descontentamento e irritação.

Em resumo, assim como Eva, Kevin mostra-se estéril de amor, atenção e empatia.

Parece claro que a vida pregressa à gravidez representava para Eva algo mais forte, e que durante o período de gestação, ela gerou também o luto por uma pessoa que no momento do parto deste novo ser, morreria definitivamente. Deixar vir ao mundo o filho, representaria deixar ir a antiga Eva, à qual era dolorido desapegar-se.

Não obstante, em sua segunda gravidez, Eva mostrou-se mais maternal, dedicando-se à nova componente do círculo familiar, deixando o desamor que vitimava Kevin desde a vida intrauterina bastante pulsante, levando este a resignificar a falta, a frieza, a distância, em manipulação, violência física e ódio, direcionados tanto para a família, quanto para o mundo.

Como disse de início, não é notório na família em questão, violência física ou mesmo verbal. No entanto, o não dizer, o não demonstrar amor, o não acolher, por vezes, constitui-se em um ato dilacerador do ego, e a proporção que isto pode alcançar é incalculável na medida em que somos seres difusos.

Precisamos do “outro” para nos estabelecermos enquanto sujeitos, e quem seria este “primeiro outro” para um bebê, se não a figura maternal¿ Quem, além daquela que lhe oferece o “seio”, poderia representar o espelho e o termômetro do mundo para o bebê¿ De acordo com a relação de acolhimento e cuidado, (ou a falta deles) é que o sujeito passa a ler o mundo e a reagir conforme esta leitura.

Talvez, o nome do filme deveria ser, ao invés de “Precisamos falar sobre o Kevin”, “falar com o Kevin”, lembrando que falar implica em mais do que um simples discurso verbal.

Segundo a psicanálise, há três estruturas psíquicas que são estabelecidas durante as fases psicossexuais do desenvolvimento. Marcas, ou seja, traumas, podem criar cicatrizes psíquicas, fazendo com que o sujeito fique preso à determinada fase. Embora as fases seguintes do desenvolvimento se imponham e sejam vividas, o prejuízo da fase onde aconteceu a marca psíquica está estabelecido, determinando assim, a estrutura psíquica do sujeito.

No caso de Kevin, é notória rejeição de seus “presentes” durante a fase anal. Sua mãe deixava bem claro o quanto não se sentia à vontade em ter que trocar suas fraldas. No entanto, para Kevin, essa era a oportunidade de ser tocado por ela. Entende-se portanto, por qual razão ele tentou estendê-la ao máximo. Como é na fase anal que o sujeito desenvolve o sadismo, o masoquismo, a noção de poder, de controle e de apreensão, a forma inadequada com a qual Eva, “recebia” de Kevin, pode ter contribuído para os resultados negativos.

É perceptível que intercorrências na fase anal foram determinantes para o desenrolar doentio da fase fálica. Vejamos, na fase fálica ocorre o famoso complexo de Édipo e a castração (grande gerador de angústia). Na castração o sujeito é barrado pela introdução do “nome do pai”. Então, já que não pode competir com aquele outro, sujeita-se e barrado enquanto sujeito, identifica-se, até como forma de economia psíquica. Quando o sujeito é barrado pela introdução do nome do pai na relação objetal primária, o sujeito em questão é levado à introjeção da lei, das regras, dos limites do certo e errado.

Como não passou pela castração, abriu-se aí um espaço para a formação da estrutura perversa. Sem passar pela angústia da castração, para Kevin, sua mãe “ainda” era fálica. Para este sujeito, não havia em relação à mãe uma função determinada, masculino ou feminino. Para ele, Eva era maternal e fálica, acolhedora e perigosa, e em relação ao pai, este ao invés de “castrar”, foi neutralizado enquanto introdutor da lei, sendo visto como um apêndice da mãe fálica.

A perversão nada mais é que uma tentativa de organização psíquica contra a angústia da castração, numa fuga do vínculo objetal, no caso de Kevin, com a mãe. Ele não queria vincular-se ao objeto, pois o ego narcisista e perverso pretendia somente possuí-lo, subjugá-lo, controlá-lo, dominá-lo. Para o perverso é necessário satisfazer-se às custas do objeto, usá-lo como uma forma de afirmação da não castração.

Na psicopatologia, a perversão encontra referencial nas personalidades antissocial ou seja, Transtorno de Personalidade Antissocial.

Análise Psicopatológica:

Fonte: DSM5 e CID10

Transtorno da personalidade (grupo B)

Transtorno da personalidade antissocial

301.7

F60.2

DSM5:

Critérios Diagnósticos Propostos: A. Prejuízo moderado ou grave no funcionamento da personalidade, manifestado por dificuldades características em duas ou mais das seguintes quatro áreas: 1. Identidade: Egocentrismo; autoestima derivada de ganho, poder ou prazer pessoal. 2. Autodirecionamento: Definição de objetivos baseada na gratificação pessoal; ausência de padrões pró-sociais internos, associada a falha em se adequar ao comportamento lícito ou ao comportamento ético em relação às normas da cultura. 3. Empatia: Ausência de preocupação pelos sentimentos, necessidade ou sofrimento das outras pessoas; ausência de remorso após magoar ou tratar mal alguém. 4. Intimidade: Incapacidade de estabelecer relações mutuamente íntimas, pois a exploração é um meio primário de se relacionar com os outros, incluindo engano e coerção; uso de dominação ou intimidação para controlar outras pessoas. B. Seis ou mais dos sete traços de personalidade patológicos a seguir: 1. Manipulação (um aspecto do Antagonismo): Uso frequente de subterfúgios para influenciar ou controlar outras pessoas; uso de sedução, charme, loquacidade ou insinuação para atingir seus fins. 2. Insensibilidade (um aspecto do Antagonismo): Falta de preocupação pelos sentimentos ou problemas dos outros; ausência de culpa ou remorso quanto aos efeitos negativos ou prejudiciais das próprias ações sobre os outros; agressão; sadismo. 3. Desonestidade (um aspecto doAntagonismo): Desonestidade e fraudulência; representação deturpada de si mesmo; embelezamento ou invenção no relato de fatos. 4. Hostilidade (um aspecto do Antagonismo): Sentimentos de raiva persistentes ou frequentes; raiva ou irritabilidade em resposta a desprezo e insultos mínimos; comportamento maldoso, grosseiro ou vingativo, deturpada de si mesmo; embelezamento ou invenção no relato de fatos.  Exposição a risco (um aspecto da Desinibição): Envolvimento em atividades perigosas, arriscadas e potencialmente prejudiciais de forma desnecessária e sem dar importância às consequências; propensão ao tédio e realização de atividades impensadas para contrapor ao tédio; falta de preocupação com as próprias limitações e negação da realidade do perigo pessoal. 6. Impulsividade (um aspecto da Desinibição): Ação sob o impulso do momento em resposta a estímulos imediatos; ação de caráter momentâneo sem um plano ou consideração dos resultados; dificuldade em estabelecer e seguir planos. 7. Irresponsabilidade (um aspecto da Desinibição): Desconsideração por – e falha em honrar – obrigações financeiras e outras obrigações e compromissos; falta de respeito por – e falta de continuidade nas – combinações e promessas.

As características típicas do transtorno da personalidade antissocial são: falha em se adequar a um comportamento lícito e ético e egocêntrica e insensível falta de preocupação com os outros, acompanhada de desonestidade, irresponsabilidade, manipulação e/ou exposição a riscos.

(DSM5 pág 808).

Podemos perceber no comportamento de Kevin, e em seu relacionamento com a família, total falta de empatia, manipulação. Também ficou evidente o descaso e o prazer que ele sentia em expor sua irmã ao risco. Numa das cenas, ele deixa exposto uma espécie de ácido, fica implícito na cena posterior, quando sua irmã grita e em seguida conclui-se que está cega, que foi ele o causador. Nesta e em outras ocasiões, fica claro sua total falta de remorso ou sentimento de culpa. Ele manipulava incansavelmente seu pai, até o dia em que o descartou, junto com sua irmã e ainda, causou a grande tragédia na escola em que estudava. Assassinou e feriu gravemente dezenas de pessoas. Contudo, em momento algum demonstrou arrependimento, antes abaixou-se como se inclina um ator ao findar sua apresentação. Fica claro aí que ele orgulhou-se de seu ato atroz.

A etiologia do transtorno de personalidade antissocial está na verdade associada à três grupos de fatores, sociais, genéticos e hereditários. É claro que no caso de Kevin, trata-se de uma personagem, contudo se fossemos analisar seu perfil psicopatológico diríamos que este foi gravemente influenciado pela falta de limites, empatia (pelo menos em relação à ele). No entanto, é sabido que estas não são causas fim para a eclosão deste transtorno, o que faz concluir que causas genéticas estejam envolvidas. Assim, entende-se que é realmente a confluência dos diversos fatores que sinalizam para o transtorno de personalidade antissocial.

Bem, espero ter contribuido para seu entendimento do Transtorno de Personalidade Antissocial, tanto pelo aspecto psicanalítico, pelo da psicopatologia.

Gratidão por sua leitura!

Até breve!

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Referências Bibliográficas:

Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais- Paulo Dalgalarrondo

DSM5

CID 10


quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

NEUROSE, PSICOSE E PERVERSÃO- DIFERENÇAS ESTRUTURAIS BÁSICAS

A diferenciação ou melhor, a estruturação do psiquismo humano depende a priori de como se dá a elaboração do modelo dinâmico descrito por Freud (id, ego e superego).

Portanto, a depender de como estas instâncias se relacionam entre si interagindo e influenciando-se ativamente, teremos em um indivíduo a estrutura neurótica, psicótica ou perversa.

O relacionamento das instâncias psicodinâmicas se dá através de conflitos interpsíquicos, (entre id, ego e superego), e ainda intrapsíquicos, ( conflitos que ocorrem dentro da instância).

Assim, o ego tem papel fundamental no balanceamento ou não destes conflitos relacionais, pois enquanto instância mediadora, sofre todas as pressões tanto do id (princípio do prazer), quanto do superego, (princípio da lei, ou realidade). Lembrando que, como no caso da construção de um prédio, onde o arcabouço estrutural, uma vez elaborado não poderá ser alterado, tornando-se fixo, assim o é a estrutura psíquica humana. Uma vez estabelecida a estrutura, esta será base sobre a qual o indivíduo funcionará no mundo.

Estrutura neurótica:  Resulta do conflito entre ego e id, onde o ego decide por atender as demandas do superego, negando os apelos do id, colocando o sob a égide da realidade, recalcando suas demandas, enviando seus conteúdos inconsciente.

O ego recalca os conteúdos do princípio do prazer e se coloca à disposição do superego, introjetando a lei e o outro. O neurótico “é” o outro.

Seu grande conflito vivencial se dá quando do retorno do recalcado, que se dá quando conteúdos mal recalcados retornam de forma diversa, como sintomas.

Estrutura psicótica: Na psicose, o conflito se dá entre o ego e o superego. Para atender às demandas do id, o ego se distancia da realidade e das demandas do superego, criando uma realidade paralela, um mundo intrapsíquico todo voltado para o id.  O ego rejeita a representação da realidade e ao mesmo tempo o seu afeto e se conduz como se a representação nunca tivesse chegado ao ego. O sujeito passa a viver nesta dinâmica. Temos aí o mecanismo de defesa da psicose: forclusão, pois o sujeito não simboliza o que deveria ser simbolizado, (a castração).

Estrutura perversa: Aqui, o ego coloca-se à disposição do id e da recusa de quaisquer conteúdos advindos da realidade (superego). Contudo, esta recusa das demandas do superego não são recalcadas como na neurose, nem rejeitadas como na psicose, antes são invertidas e manejadas tornando-as aceitáveis e prazerosas para este ego perverso. Os conteúdos da realidade, (da lei), são pervertidos ou seja, são subvertidos em seus princípios fundamentais. A característica principal deste ego é ser sistônico. O superego é praticamente inexistente, sem qualquer expressividade nesta estrutura, fazendo do ego (narcisista), o soberano e não há nenhum mecanismo de recalcamento.

Se a psicose enquanto estrutura psíquica é caracterizada pelo descompromisso como a realidade, assim o é enquanto patologia também. Nas psicoses, o sujeito cria para si um mundo particular, com conteúdo delirante também de cunho particular. É o sujeito que o cria, seu ego está a serviço do id, tudo é possível. Assim sendo, a depender da vontade do sujeito, em seu “universo” paralelo, poderá ser um super-herói, um Deus, e infinitas possibilidades mais. Quanto maior for o afastamento da realidade, maior os danos ao ego, assim sendo, até o total esfacelamento desta instância e a total alienação do eu.

Então pessoal, esse foi um resumo bem básico das diferenças entre as estruturas psíquicas, sob a perspectiva freudiana. Espero que tenha ajudado no entendimento desse assunto tão instigante, desafiador e complexo para tantas pessoas.

Minha fonte neste post foi o livro Fundamentos Psicanalíticos, de David Zimmerman.

Gratidão pela leitura!

Até mais!

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domingo, 6 de fevereiro de 2022

VIKTOR FRANKL : A RESILIÊNCIA TEM NOME E SOBRENOME

 Viktor Emil Frankl, muito conhecido como o criador da Logoterapia e precursor da Psicologia Positiva, nasceu em 1905, em uma famíla judia e tinha uma vida confortável, já que seus pais eram funcionários públicos. 

É importante ressaltar que Viktor era austríaco e vivia em Viena. 

Com a eclosão  da primeira guerra mundial, sua família perdeu tudo o que tinham e passaram inclusive, a pedir esmolas.

Imagine, uma criança cuja família goza de estabilidade e segurança, vivenciar a polarização, a destruição e escasses resultantes da guerra. E mais, nascer tendo tudo e num estante, não ter nem segurança alimentar.

No entanto, a vida seguiu e Frankl seguiu a vida. Seu interesse pela psicologia e filosofia surgiram durante o ensino médio, quando ele já palestrava sobre aquilo que se tornaria a técnica psicoterápica que se a basearia na busca do sentido da vida: a logoterapia. Seu entusiasmo e dedicação a sua teoria de uma vida com sentido o colocou em correspondência com Sigmund Freud e é claro, que o pai da psicanálise o estimulou a publicar seu primeiro artigo em 1924, quando estudava medicina.

Após completar suas residências em Neurologia e Psiquiatria, tornou-se responsável por uma ala do hospital psiquiátrico que abrigava 3 mil mulheres com ideação suicida. Viktor casou-se em 1941 com uma enfermeira do mesmo hospital onde trabalhava, ambos eram judeus.

Novamente houve uma reviravolta na vida de Frankl, a segunda guerra mundial!

Ele e toda sua família foram enviados para um gueto e logo depois para três campos de concentração. Neste interim, sua esposa que estava grávida sofreu aborto pelas mãos dos nazistas e depois, foram separados. Todos os seus entes queridos foram mortos pelos nazistas: o bebê que a esposa gestava, sua esposa, seus pais, seu irmão. Somente ele e sua irmã sobreviveram aos trabalhos forçados nos campos de concentração por onde passaram.

Durante os 3 anos de trabalhos forçados, o psiquiatra viu e sentiu na própria pele as dores da falta de sentido de vida, mas ao contrário de muitos, não se rendeu à desesperança. Naquele contexto de desespero e desumanidade, o mantra recitado mentalmente por Frankl eram as palavras de Nietzche: " Quem tem por que viver, pode suportar quase qualquer como." Mas tem um detalhe, Viktor Frankl nem imaginava que sua esposa já havia sido assassinada.

Ao ser libertado em 1944, ao descobrir que já não poderia encontrar sua esposa e que quase toda sua família fora morta, ele mostrou-se um gigante resiliente, pois fez de seus ideais, seu propósito de vida. Assim, em 1945 publicou o livro " Dizendo sim para a vida apesar de tudo: experiências de um psicólogo no campo de concentração".

Quer lição maior de resiliência? 

Ele não só superou, mas evoluiu encontrando novos sentidos para seguir vivo( contra todas as probabilidades). Tornou-se diretor da Policlínica Neurológica de Viena, cargo que ocupou por 25 anos. Palestrou em 209 univesidades em todos os continentes e recebeu 29 títulos de Doutor Honoris Causa, no Brasil pela UFRGS e PUCRS.

Viktor Emil Frankl deixou seu legado de esperança e persistência, de fé na vida e em si. Foi, portanto o grande influenciador de Martin Seligman na elaboração da Psicoterapia Positiva, hoje tão bem difundida. 

Espero que a história deste ícone da resiliência tenha lhe inspirado à olhar para dentro de si e buscar aquela esperança, o otimismo já quase adormecido, a fagulha de vida necessária para incendiar novamente seu espírito, fazendo-lhe ter coragem para continuar a viver, mesmo contra todas as adversidades. 

Gratidão pela leitura!

Espero que você tenha gostado do conteúdo, se tiver alguma sugestão, algum tema que gostaria de ver abordado aqui, por gentileza, sinta-se à vontade!

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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

"A Mulher Não Existe". Como assim?!

Essa frase de Lacan, soa uma ode ao maxismo, se não viesse de alguém tão pouco conservador como Jacques Lacan. Aliás ele era um sedutor de mentes, é como gosto de pensá-lo, e mais, era tido como subversivo em relação as ideias da psicanálise freudiana. Mas ao contrário do que diziam as más línguas, Lacan afirmava-se o maior dos freudianos. 

Que ele atualizou a psicanálise com suas formúlas, teoria sobre a linguagem e frases cabulosas, não há  dúvidas. Tanto que esta "A mulher não existe" fora uma das muitas causadoras de verdadeiro furor e o é ainda hoje, se lida ou dita fora de contexto.

Para iniciarmos nossa despretensiosa explicação, gostaria de deixar registrado que Lacan não era maxista, nem preconceituoso, ao contrário, sua mente encontrava-se à frente de seu tempo e dos paradigmas psicanalíticos sobretudo em relação à mulher.

Dito isto, o artigo definido A em maiúsculo dá conta de algo que é abrangente, como se apontasse para algo que é, um modo de conceituar.  No entanto,  são tantas as variabilidades quando se trata do ser feminino que fica impossível colocar-nos em um significado. Justamente por isso ele diz que "A Mulher não existe". Não existe uma mulher que dê conta de explicar as outras. 

Uma mulher não é suficiente para exemplificar todas as outras, e justamente por isso, na visão lacaniana existem as mulheres, pois seria preciso analisar uma por uma, em suas especificidades, peculiaridades, resumindo, em tudo o que todas nós temos diferentes umas das outras.

É impossível dizer das mulheres como se diz dos homens. Você certamente já ouviu falar: Homem é tudo igual, então O Homem existe.

Mas certamente nunca ouviu: Mulher é tudo igual. Sendo assim, A mulher não existe e sim As mulheres ( pois são vários significantes com significados diferentes). 

Complicado? Nem tanto, mas para entender é preciso ter a mente livre de preconceitos e pensamentos defensivos. 

Lembro que a primeira vez que ouvi esta célebre frase, na faculdade, observei um desconforto imenso entre as alunas da classe da qual eu fazia parte. Era um borburinho que expressou toda a antipatia que surgira num abrir e fechar de olhos direcionada ao Grande Freudiano. Injustamente, é claro. 

Eu que já havia iniciado meus estudos sobre Lacan, entendi perfeitamente, porém a maioria, mesmo após a elucidação magistral realizada por nossa mestra em Psicanálise, muitas colegas torciam o nariz toda vez que ouviam o nome Lacan.

Particularmente, gosto, mais que gosto, admiro imensamente suas idéias, seu humor ácido, sua habilidade de desvelar o inconsciente até mesmo nas pequenas nuances da linguagem. 

Fica aqui minha sugestão para quem tem o hábito de não gostar antes de experimentar, que leia pelo menos um dos seminários de Lacan. Creia, você se surpreenderá. Certamente uma pulguinha será colocada atrás de sua orelha!

Hoje ficamos por aqui, agradeço sua leitura e espero poder encontrarmo-nos novamente em breve!

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quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Transtorno de Ansiedade Generalizada: alguns sintomas que passam desapercebidos

 Existem sintomas que só o ansioso conhece, e alguns os tem e nem sabem que estão relacionados a ansiedade e outros, de tão intensos só são experenciados pelas pessoas com Transtorno de Ansiedade Generalizada. É isso mesmo, como se não bastasse a "senhora" ansiedade, ela ainda se subdivide em grupos sintomáticos com mais ou menos intensidade e frequência, sendo estes aspectos os diferenciadores e definidores do nível e tipo de transtorno ansioso que se está vivendo.

Não quero que sua leitura seja enfadonha, meu querido e querida leitora. Meu objetivo é tornar o mais simples possível o seu entendimento sobre o que acontece com pessoas que tem este transtorno de humor hoje tão corriqueiro para a humanidade, mas que traz um enorme sofrimento para os que com ele convive.

Bem, chega de enrolação e vamos direto ao ponto!

Você sabia que suor (em alguns casos, é claro) é sinal de ansiedade? Sabe aquela sudorese fria nas mãos, nos pés, na testa, pescoço e (o que me incomoda mais), nas axilas? Pois é, pode ser devido à ansiedade.

Pra saber se é ansiedade ou não é só observar: Quando você está para sair de casa, só de pensar em qual roupa usar, já começa a sudorese? Quando precisa assinar algo ou falar em público percebe que suas mãos e/ou testa, pés, axilas iniciam uma hiperidrose incontrolável que chega a gotejar? 

Se você se identificou, há grandes chaces de ser um ansioso generalizado. 

Há pessoas que pensam que o Transtorno de Ansiedade Generalizada é caracterizado principalmente pelas crises de pânico. Não estou aqui negando isto, só que nem s

Você conhece alguém que só usa blusas, camisas ou camisetas pretas ? Já parou para pensar porquê?

A cor preta é a que menos mostra a sudorese. Existem também outras cores que disfarçam, mas nenhuma como o preto. Tem tecidos que também não mostram a mancha de suor que se faz nas axilas no quadro de ansiedade generalizada, é o caso de algumas rendas, que mesmo coloridas, não mostram o aspecto de molhado. Enfim, é um problema na hora de sair de casa. 

E o mais interessante é que você pode estar bem, de moletom cor de rosa, jogada no sofá, assistindo seu streaming preferido, mas se alguém te enviar uma mensagem ou ligar avisando que vem tempre alguém que seja ansioso ao extremo tem crises de pânico. 

É claro, Transtorno de Pânico, Síndrome do Pânico são quadros horríveis de se vivenciar, só quem já passou por isso entende o que estou falando aqui, porém a hiperidrose causada pela ansiedade é um incômodo que em alguns casos, chega a impedir que a pessoa vá à uma festa, por exemplo. e visitar, na hora começa o pinga pinga! Aff!

Ah, não posso deixar de falar da dificuldade de usar uma sandália! É isso mesmo que você leu! Uma simples sandália, é o sonho de muitas ansiosas neste mundo. Quer saber porquê?

Eu explico: os pés suam tanto que a pessoa simplesmente não consegue manter os pés no calçado. Imaginou como é a vida de uma pessoa com ansiedade generalizada? 

Sei do que estou falando, os sapatos preferidos são sapatilhas, tênis, scarpin e sandálias, só se forem aquelas que são afiveladas nos tornozelos, pois estas não ficam " dançando" nos pés.

É, a vida de um ansioso, mesmo funcional, como costumo dizer, não é fácil. Dizer fica calma, não é nada de mais, não adianta nada. Tudo o que uma pessoa com ansiedade generalizada quer na vida é ficar calma, sentir-se autoconfiante e segura de si. Mas infelizmente não é tão fácil assim.

A ansiedade não depende do meu ou do seu querer, é uma questão muito mais profunda, que se origina lá na vida intrauterina, passa pela infância, depois ganha impulso nas mudanças hormonais que ocorrem na puberdade, é aumentada pelas pressões do dia a dia, por tudo o que seu incosciente recalcou, por todos os estímulos que o ambiente em que você vive lhe condicionou e por aí vai.

Uma pessoa ansiosa vai deixar de ser ansiosa um dia? É possível, mas não é fácil. Depende de um processo intenso de autoconhecimento, autoaceitação, autocompaixão, e principalmente de autovaloração. E todo esse processo é bem difícil de ser percorrido sem a ajuda de um psicólogo, pois é justamente na psicoterapia que você aprende que ser você, do jeitinho que é , tá tudo bem, que você não precisa ser "perfeito". Ser você mesmo, suando ou não, já está bom demais!

No próximo post vou falar mais dos processos de autoconhecimento, autoaceitação, autocompaixão e autovaloração, e porque eles são tão importantes no tratamento não só do Trantorno de Ansiedade Generalizada, mas também em todos os Transtornos de Humor.

Gratidão por estar comigo nessa viagem!

Até!

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ORAÇÃO GESTÁLTICA: Egoísmo ou Desapego?

" Eu faço as minhas coisas e você faz as suas; Não estou neste mundo para atender às suas expectativas, e você não está neste mundo pa...