sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

TRANSTORNO DE PERSONALIDADE ANTISSOCIAL- Análise Psicanalítica do longa "Precisamos falar sobre o Kevin", de Lynne Ramsay

 

O filme “Precisamos falar sobre o Kevin”, é desde o início um filme brutal, repleto de cenas de violência e abandono não físicos. Pode-se notar logo de início, o pesar psicológico que a gravidez, indesejada para a mãe e desejada para o pai, representava na vida de Eva. Fica claro que Eva sentia-se uma mulher realizada, bem sucedida profissionalmente, livre e independente, no entanto, após o nascimento de Kevin, sua vida mudaria completamente, transformando a mulher de sucesso em mãe e típica dona de casa.

Nota-se a inabilidade de Eva para desempenhar tal papel quando a mesma segura o bebê longe de si, e quando ela se desespera por não conseguir fazer a criança parar de chorar. Porém quando o pai o segura, é perceptível a relação de afeto que se estabelece entre o progenitor e a criança, quando o bebê se acalma e cessa o pranto em seus braços.

Adotando esta linha de pensamento, e analisando os afetos não exteriorizados, as palavras não ditas, a não aceitação implícita na falta de empatia, na inexpressão do amor e do pertencimento, levanta-se uma questão: se durante a gravidez, há uma relação simbiótica entre mãe e filho, então todos os afetos da mãe são experenciados pelo feto, logo, Kevin ainda na vida intrauterina introjetou a incapacidade de ser amado e, consequentemente, a mesma incapacidade para amar. Assim, conclui-se que se este sujeito não pode ter o domínio sobre seu primeiro objeto de desejo, neste caso, a mãe, por meio do amor, este sujeito trata de assegurar então este domínio através da atenção, mesmo que isso se dê de forma negativa e dolorosa para ambos. Daí entende-se perfeitamente o uso (ainda que inconsciente) do choro compulsivo, da extensão da fase anal (assegurado pelo não controle do esfíncter anal), obrigando a mãe a “receber suas primeiras produções”. Contudo, estes esforços mostram-se um desperdício de energia psíquica pois em relação ao choro, a mãe sequer consegue afagar lhe, e em relação às fezes e ao uso das fraldas, a mãe deixa claro seu descontentamento e irritação.

Em resumo, assim como Eva, Kevin mostra-se estéril de amor, atenção e empatia.

Parece claro que a vida pregressa à gravidez representava para Eva algo mais forte, e que durante o período de gestação, ela gerou também o luto por uma pessoa que no momento do parto deste novo ser, morreria definitivamente. Deixar vir ao mundo o filho, representaria deixar ir a antiga Eva, à qual era dolorido desapegar-se.

Não obstante, em sua segunda gravidez, Eva mostrou-se mais maternal, dedicando-se à nova componente do círculo familiar, deixando o desamor que vitimava Kevin desde a vida intrauterina bastante pulsante, levando este a resignificar a falta, a frieza, a distância, em manipulação, violência física e ódio, direcionados tanto para a família, quanto para o mundo.

Como disse de início, não é notório na família em questão, violência física ou mesmo verbal. No entanto, o não dizer, o não demonstrar amor, o não acolher, por vezes, constitui-se em um ato dilacerador do ego, e a proporção que isto pode alcançar é incalculável na medida em que somos seres difusos.

Precisamos do “outro” para nos estabelecermos enquanto sujeitos, e quem seria este “primeiro outro” para um bebê, se não a figura maternal¿ Quem, além daquela que lhe oferece o “seio”, poderia representar o espelho e o termômetro do mundo para o bebê¿ De acordo com a relação de acolhimento e cuidado, (ou a falta deles) é que o sujeito passa a ler o mundo e a reagir conforme esta leitura.

Talvez, o nome do filme deveria ser, ao invés de “Precisamos falar sobre o Kevin”, “falar com o Kevin”, lembrando que falar implica em mais do que um simples discurso verbal.

Segundo a psicanálise, há três estruturas psíquicas que são estabelecidas durante as fases psicossexuais do desenvolvimento. Marcas, ou seja, traumas, podem criar cicatrizes psíquicas, fazendo com que o sujeito fique preso à determinada fase. Embora as fases seguintes do desenvolvimento se imponham e sejam vividas, o prejuízo da fase onde aconteceu a marca psíquica está estabelecido, determinando assim, a estrutura psíquica do sujeito.

No caso de Kevin, é notória rejeição de seus “presentes” durante a fase anal. Sua mãe deixava bem claro o quanto não se sentia à vontade em ter que trocar suas fraldas. No entanto, para Kevin, essa era a oportunidade de ser tocado por ela. Entende-se portanto, por qual razão ele tentou estendê-la ao máximo. Como é na fase anal que o sujeito desenvolve o sadismo, o masoquismo, a noção de poder, de controle e de apreensão, a forma inadequada com a qual Eva, “recebia” de Kevin, pode ter contribuído para os resultados negativos.

É perceptível que intercorrências na fase anal foram determinantes para o desenrolar doentio da fase fálica. Vejamos, na fase fálica ocorre o famoso complexo de Édipo e a castração (grande gerador de angústia). Na castração o sujeito é barrado pela introdução do “nome do pai”. Então, já que não pode competir com aquele outro, sujeita-se e barrado enquanto sujeito, identifica-se, até como forma de economia psíquica. Quando o sujeito é barrado pela introdução do nome do pai na relação objetal primária, o sujeito em questão é levado à introjeção da lei, das regras, dos limites do certo e errado.

Como não passou pela castração, abriu-se aí um espaço para a formação da estrutura perversa. Sem passar pela angústia da castração, para Kevin, sua mãe “ainda” era fálica. Para este sujeito, não havia em relação à mãe uma função determinada, masculino ou feminino. Para ele, Eva era maternal e fálica, acolhedora e perigosa, e em relação ao pai, este ao invés de “castrar”, foi neutralizado enquanto introdutor da lei, sendo visto como um apêndice da mãe fálica.

A perversão nada mais é que uma tentativa de organização psíquica contra a angústia da castração, numa fuga do vínculo objetal, no caso de Kevin, com a mãe. Ele não queria vincular-se ao objeto, pois o ego narcisista e perverso pretendia somente possuí-lo, subjugá-lo, controlá-lo, dominá-lo. Para o perverso é necessário satisfazer-se às custas do objeto, usá-lo como uma forma de afirmação da não castração.

Na psicopatologia, a perversão encontra referencial nas personalidades antissocial ou seja, Transtorno de Personalidade Antissocial.

Análise Psicopatológica:

Fonte: DSM5 e CID10

Transtorno da personalidade (grupo B)

Transtorno da personalidade antissocial

301.7

F60.2

DSM5:

Critérios Diagnósticos Propostos: A. Prejuízo moderado ou grave no funcionamento da personalidade, manifestado por dificuldades características em duas ou mais das seguintes quatro áreas: 1. Identidade: Egocentrismo; autoestima derivada de ganho, poder ou prazer pessoal. 2. Autodirecionamento: Definição de objetivos baseada na gratificação pessoal; ausência de padrões pró-sociais internos, associada a falha em se adequar ao comportamento lícito ou ao comportamento ético em relação às normas da cultura. 3. Empatia: Ausência de preocupação pelos sentimentos, necessidade ou sofrimento das outras pessoas; ausência de remorso após magoar ou tratar mal alguém. 4. Intimidade: Incapacidade de estabelecer relações mutuamente íntimas, pois a exploração é um meio primário de se relacionar com os outros, incluindo engano e coerção; uso de dominação ou intimidação para controlar outras pessoas. B. Seis ou mais dos sete traços de personalidade patológicos a seguir: 1. Manipulação (um aspecto do Antagonismo): Uso frequente de subterfúgios para influenciar ou controlar outras pessoas; uso de sedução, charme, loquacidade ou insinuação para atingir seus fins. 2. Insensibilidade (um aspecto do Antagonismo): Falta de preocupação pelos sentimentos ou problemas dos outros; ausência de culpa ou remorso quanto aos efeitos negativos ou prejudiciais das próprias ações sobre os outros; agressão; sadismo. 3. Desonestidade (um aspecto doAntagonismo): Desonestidade e fraudulência; representação deturpada de si mesmo; embelezamento ou invenção no relato de fatos. 4. Hostilidade (um aspecto do Antagonismo): Sentimentos de raiva persistentes ou frequentes; raiva ou irritabilidade em resposta a desprezo e insultos mínimos; comportamento maldoso, grosseiro ou vingativo, deturpada de si mesmo; embelezamento ou invenção no relato de fatos.  Exposição a risco (um aspecto da Desinibição): Envolvimento em atividades perigosas, arriscadas e potencialmente prejudiciais de forma desnecessária e sem dar importância às consequências; propensão ao tédio e realização de atividades impensadas para contrapor ao tédio; falta de preocupação com as próprias limitações e negação da realidade do perigo pessoal. 6. Impulsividade (um aspecto da Desinibição): Ação sob o impulso do momento em resposta a estímulos imediatos; ação de caráter momentâneo sem um plano ou consideração dos resultados; dificuldade em estabelecer e seguir planos. 7. Irresponsabilidade (um aspecto da Desinibição): Desconsideração por – e falha em honrar – obrigações financeiras e outras obrigações e compromissos; falta de respeito por – e falta de continuidade nas – combinações e promessas.

As características típicas do transtorno da personalidade antissocial são: falha em se adequar a um comportamento lícito e ético e egocêntrica e insensível falta de preocupação com os outros, acompanhada de desonestidade, irresponsabilidade, manipulação e/ou exposição a riscos.

(DSM5 pág 808).

Podemos perceber no comportamento de Kevin, e em seu relacionamento com a família, total falta de empatia, manipulação. Também ficou evidente o descaso e o prazer que ele sentia em expor sua irmã ao risco. Numa das cenas, ele deixa exposto uma espécie de ácido, fica implícito na cena posterior, quando sua irmã grita e em seguida conclui-se que está cega, que foi ele o causador. Nesta e em outras ocasiões, fica claro sua total falta de remorso ou sentimento de culpa. Ele manipulava incansavelmente seu pai, até o dia em que o descartou, junto com sua irmã e ainda, causou a grande tragédia na escola em que estudava. Assassinou e feriu gravemente dezenas de pessoas. Contudo, em momento algum demonstrou arrependimento, antes abaixou-se como se inclina um ator ao findar sua apresentação. Fica claro aí que ele orgulhou-se de seu ato atroz.

A etiologia do transtorno de personalidade antissocial está na verdade associada à três grupos de fatores, sociais, genéticos e hereditários. É claro que no caso de Kevin, trata-se de uma personagem, contudo se fossemos analisar seu perfil psicopatológico diríamos que este foi gravemente influenciado pela falta de limites, empatia (pelo menos em relação à ele). No entanto, é sabido que estas não são causas fim para a eclosão deste transtorno, o que faz concluir que causas genéticas estejam envolvidas. Assim, entende-se que é realmente a confluência dos diversos fatores que sinalizam para o transtorno de personalidade antissocial.

Bem, espero ter contribuido para seu entendimento do Transtorno de Personalidade Antissocial, tanto pelo aspecto psicanalítico, pelo da psicopatologia.

Gratidão por sua leitura!

Até breve!

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Referências Bibliográficas:

Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais- Paulo Dalgalarrondo

DSM5

CID 10


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